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Os professores em 3 grupos: os deprimidos, os endinheirados e os generosos.

Ontem estive numa reunião de trabalho que durou 90 minutos. 15h-16h30 como referia a convocatória. Gosto desta ideia. De existir uma hora fim – não sei se só acontece comigo, mas já estive em muitas reuniões de trabalho em que, independentemente do tempo de duração, não se chega a qualquer resolução. Ontem, enquanto ouvia as diferentes participações, em redor da mesa oval, revisitei reuniões de trabalho de um passado mais ou menos distante. É interessante o facto de independentemente da nacionalidade, contexto ou cargo sermos, em último, todos humanos.

Quando era professora costumava dividir os professores em 3 grupos: os deprimidos, os endinheirados e os generosos.

O professor deprimido. Não gosta de ser professor. Ainda por cima tem de aguentar a “bomboca” já que o dinheirinho lhe dá jeito. Gostam, sobretudo, de planos pedagógicos e legislação (principalmente o estatudo da carreira docente). O horário só começa depois das 10h, já que os comprimidos para dormir os tornam zombies às 8h da manhã. Os alunos não lhes ligam nenhuma “fala para aí que eu ouço a minha música”. Entre colegas a coisa não é diferente “não, epá não está em condições de fazer isso – o melhor é distribuires esse serviço para outro”, se participa em reuniões há quem na vizinhança pense “como é que os alunos aguentam?”.

O professor endinheirado (alguns chamam-lhes baldas, mas eu acho que são é espertos). Gosta de ensinar. Tem, aliás, dois interesses fundamentais: conhecimento e dinheiro (vá, chamemos-lhe interesse por uma vida confortável). Cumpre o seu serviço na escola. Como o rigor é uma das suas características fundamentais, passa, na escola, rigorosamente, o tempo de serviço atribuído. Nem mais, por vezes menos! O outro tempo dedica-o a explicações particulares. E é bem verdade que uma e outra função se complementam – afinal está sempre a trabalhar! Com o tempo as explicações vão sendo cada vez menos. Não, não é para estar mais tempo na escola. Afinal há que aproveitar a vida (com o dinheirito amealhado). Viagens, concertos e tudo o que de bom uma mesa pode oferecer… estão no top+ da lista: o que fazer com o tempo livre!

O professor generoso (por vezes também lhe chamava voluntarioso). As escolas vivem à conta deste grupo de professores. São aqueles que dedicam todo o seu tempo à escola. É deles que depende toda a organização, estrutura, projectos, ritmo e identidade da escola. Por muitos colegas (a generalidade diria) são vistos como os parvos do sistema. Para os próprios a visão é diferente. Consideram-se insubstituíveis, importantes e (o problema começa aqui) com sentido de autoridade sobre os demais.

As reuniões são um exercício interessante. Os deprimidos podem usar da palavra, mas ninguém os ouve. Os endinheirados querem é que a reunião acabe – têm mais que fazer! Por isso permanecem em silêncio toda a reunião (normalmente a trabalhar no iPad – sim, eles gostam dessas modernices). E restam os outros… com todo o tempo da vida. E é neste momento que a reunião se torna numa arena. As disputas entre aqueles que querem manter o seu poleiro e os outros que acham que se pode fazer diferente. É um verdadeiro hemiciclo de poder e oposição. Ontem não foi entre professores. Não foi em português. Mas estávamos lá todos representados! Se houve diferença é que aqui em França as pessoas são mais directas. E se têm de dizer “Olha continua a coçá-los que é o que sabes fazer melhor” dizem mesmo!

Até breve…

Acham que algum médico iria colocar no seu facebook “hoje faltei às cirurgias de toda a manhã LOL e, na próxima semana, será o meu colega LOL”?

Todos vós que acompanham o agoradigoeu desde o seu início leram, provavelmente, um post que escrevi, durante a viagem, quando vim para França. Nesse post vomitei todo o meu descontentamento, desilusão e mágoa pelas políticas de educação, geradas pelos últimos governos.  Escrevi outros textos sobre os alunos, o ensino e a escola. Nunca escrevi sobre os professores! Curioso, este facto! Por que motivo nunca escrevi sobre os professores?

Acho que hoje percebi porquê…

Ser professor não é um estado – ou se é, ou não se é – teria chumbado no exame de psicologia de educação se tivesse escrito isto! Mas é o que penso, de facto!

Ser professor é, na minha opinião, desenvolver, naqueles que ensina,  o sentido crítico, a construção do conhecimento, a rede de suporte nas decisões ou a estrutura de apoio na definição de um futuro.

Mas há um equívoco!

Parece que (hoje) nada do que escrevi é desejável num professor – muito menos que tenha, ele próprio, sentido crítico! Segundo a maioria (incluindo o governo) Professor é um transmissor de conhecimento – já imaginaram que agradáveis seriam as aulas se os livros fossem audio-livros? Cada um dos alunos teria phones nos ouvidos e passaria 90 minutos (ou 45 min… ou 55 min) em silêncio a ouvir o seu “transmissor de conhecimento”! E qual é o problema se estivessem a ouvir música? Ao professor apenas se pede para transmitir conteúdos! Isso e ter em conta que o menino é bem comportado (ou não), que chega a horas (o que se deve agradecer – já que é um exemplo de bom comportamento), que não manda os colegas à merda ou o professor para outro local (ainda) menos elegante (sim, se disser apenas sua parva ou seu défice, ao colega da frente, não é grave – afinal é a idade)! E se os alunos têm um audio-livro para quê um professor na sala? Por certo que se arranjariam umas empresas com prestações de serviços (poderiam ser as câmaras municipais a fazer a contratação das mesmas) com pseudo-professores (leia-se baixo custo) para fazer este trabalhinho de vigilância. E o método é tão bom que em vez de salas de aula, as escolas poderiam ter anfiteatros – 100 ou 200 alunos, seria um número exequível! E óbvio, esta seria uma estratégia de caracter transitório, já que no futuro a escola se pensaria numa lógica virtual, assente numa plataforma (também virtual), com professores excepcionais (como tudo o que é virtual pode ser) e exames cuja correcção é feita automaticamente, por sistemas inteligentes.

Voltando aos professores. Aos professores de carne e osso. Aqueles sobre os quais ainda não escrevi. Os que acreditam poder fazer a diferença em relação ao audio-livro. Esses vivem por estes dias uma batalha pelos seus direitos. Estão a usar a última das armas: a avaliação dos alunos. Estão conscientes do impacto. Mas é bem verdade que se há momento para uma greve às avaliações, este é o momento! Depois de todas as alterações desejadas pelo governo restará pouco mais do que os audio-livros. Tenho-me questionado se eu, estando colocada, faria greve às avaliações – não tenho resposta – sobretudo por desconhecimento da realidade actual, no terreno.

Mas… Fazer greve é um direito! E neste caso, compreendo e apoio. Não posso, no entanto, deixar de referir que me incomodaram algumas das actualizações de estado que vi hoje, no facebook! Alguns professores escreveram – “Faltei à reunião LOL e amanhã vou faltar a outra LOL” (será adequado fazer esta partilha com LOL?) ou partilhas integrais de actas de reunião (acompanhadas de ehehehehe ou ahahahahaha)… Fiquei a pensar nisto, partilhei num grupo do facebook, questionando a forma como as pessoas estão a partilhar a sua adesão à greve! A recepção das minhas palavras não foi a melhor, no entanto acho que vale a pena a classe pensar nisto, se quer ter o respeito da sociedade em geral. Pensei em casos similares. Imagine-se uma greve dos médicos às cirurgias. Acham que algum médico iria colocar no seu facebook “hoje faltei às cirurgias de toda a manhã LOL e na próxima semana, será o meu colega LOL”? Tenho dúvidas que isto pudesse acontecer…

Vale a pena pensar nisto! (digo eu e… apenas com os dedos!)