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Incoerências do atendimento ao cliente… 

Contexto I – ourivesaria de rua numa vila ribatejana próxima de Lisboa. 15h.

A empregada chega 15 min atrasada para abrir a loja. Pede inúmeras vezes desculpa. Diz que foi o cabeleireiro. A senhora olha para mim com aquele ar: “tu também devias ir dar um jeito nesse cabelo”!

Escolho o que procuro. Pago. A senhora volta a repetir que é uma chatice. É uma chatice lavar o cabelo. Que não tem tempo.

Eu digo para mim que concordo. Que é preciso ter tempo – e paciência – para ir ao cabeleireiro. 

Mas…

A senhora completa a frase. É uma chatice lavar o cabelo em casa. Não tenho tempo com os miúdos. É por isso que tenho de ir ao cabeleireiro à hora de almoço. 

Hum….

E eu a pensar. Amiguinha se pagasses 60€ para lavar a cabecinha no cabeleireiro bem que arranjavas tempo! (Ai o que eu gosto dos queixumes que Portugal está mal e tal!)

Contexto II – Joalharia na Av da Liberdade. 

Estas joalharias sempre me intimidaram. O facto de terem a porta fechada e um ar requintado no interior fazem-me pensar que não me estão acessíveis. Acontece que corri todas as ourivesarias de rua e nenhuma tinha o que procurava. “Só as casas que representam essas marcas é que têm esses produtos” foi a frase que mais ouvi. Foi desse modo que descobri a Dara Jewels.

Um tratamento excepcional (num sofá que não me importava de ter em casa), mesmo tendo eu o cabelo despenteado – como na generalidade dos dias -, uma mala sem marca ou umas botas sem salto. Fui mais bem atendida nesta joalharia do que tantas vezes na parfois ou na casa batalha. 

As incoerências do atendimento ao cliente… é o que lhe chamo!

A fazer de conta que percebo de cozinha…

Juntamente com a Beatriz. O nosso bolo preferido é o bolo de bolacha. “Mas isso não é doce de Natal!” Diz a minha mãe! Ahm?!?! “Temos as azevias e os filhoses e as trouxas de ovos e … Tudo o que tem muito ovo e açúcar!

Mas o bolo de bolacha também pode ser um doce de Natal! Ora vejam e digam lá se não ficou bonito!

  

Tem luzinhas e tudo! 😀 Basta ter imaginação e tudo se resolve!!

A consoada de Natal… numa casa portuguesa!

As velas vermelhas nos castiçais de prata já estão acesas. Iluminam a magia de Natal. De uma mesa colorida pelos ornamentos do serviço da Vista Alegre. Os copos de cristal – três por pessoa – aguardam os brindes da noite. Noite quente pela lenha que arde na lareira. Os anéis em prata, dos guardanapos, têm inscritos os nomes dos comensais. Aqueles que degustam os aperitivos. Enquanto os Bernardos Marias e as Franciscas Teresas tocam no piano da família.

A memória dos meus Natais não é nada assim. Este ano não foi excepção.

A família é numerosa. Os avós. Os filhos. Os netos. Juntam-se os tios e os primos. Cabem todos à mesa. E mesmo que existam os serviços da vista alegre e os copos de cristal. Não é noite para essas coisas. A mesa é grande, mas os comensais são numerosos. Juntam-se as outras mesas da casa. Inventam-se os bancos e as cadeiras. Aproximam-se os pratos e abre-se espaço no centro. Se castiçais existirem é só para ser bonito e não dura muito tempo. Venha o paio e o queijo e o presunto e as gambas e as azeitonas. Porque é mesa farta e temos fome. O pão. Ai o pão. E a broa. E mais pão. Ah… e o vinho. Os Montes Velhos e afins – que vinhos não é a minha especialidade.  “Epá, este vinho é mesmo bom!” O jantar começa. Os homens sentam-se do lado de lá – do lado de onde já não vão sair. As mulheres do lado de cá. Do lado em que estão todo o tempo a abastecer o centro da mesa. Venham os bacalhaus. Sim os bacalhaus. O clássico – bacalhau com couves e batatas. O clássico com pinta – igual  ao primeiro, mas com broa de milho e vai ao forno. E o que de clássico não tem nada – o que eu mais gostei – com puré e bróculos. “Epá, já provaste as minhas couves?”, “As tuas são boas. Mas as minhas.” As conversas instalam-se. Não se fala sobre a crise. Nem sobre política. Nem sobre o mundo. Fala-se da vida dos outros, naturalmente. Há sempre assunto – quem é que anda com quem é o que tem mais aderentes. Ponteado por virgulas “Muda lá para a casa dos segredos – já devem estar a abrir os presentes da família”. “Não muda nada – isso não interessa a ninguém.” “Põe mais um cavaco na lareira que está a fazer frio”. “Para que é que puseste tanta lenha – está um calor que não se aguenta aqui. Abre a porta” E de quando em vez há quem se lembre de perguntar uma e outra vez “Já provaram as minhas couves? São mesmo boas.” O jantar prossegue. Os copos também. Eu vou recebendo mensagens da minha filha que está no Brasil. Estamos em contacto no Viber. Trocamos fotografias. Nós de cachecol e eles de sandálias. Nós a comer bacalhau e eles com um porco – mais que muito feio – para enfiar no espeto. Nós a ouvir “Quem quer ser Milionário”. Eles a dançarem “Samba que é Brasil”. Levanta-se a mesa dos bacalhaus. Põe-se a mesa dos doces. Salada de frutas, tartes e tartinhas, os fritos – “Já comeram os meus fritos? – são mesmo como (quem já não está entre nós) fazia, não são?” – a lampreia de ovos, o Molotof, as azevias,… ah e o bolo rei. Juntam-se os digestivos. Faz-se silêncio: os presentes da casa dos segredos. Que ninguém vê mas que todos sabem tudo – menos os emigrantes – Pois!

No Brasil começa-se a jantar – mais fotografias. Nós em contagem decrescente para os presentes – e eu faço videos para enviar para lá. Os presentes ocupam 1/4 de superfície da sala. Está quase. Está quase. Ligam-se de França. Por lá já se abriram os presentes. A distribuição começa. Amontoam-se os papeis. Até que surge o primeiro presente (de cinco) para os meus pais – a surpresa de que vos falei ontem. A minha mãe abre a caixa. Encontra um envelope com uma pista. Afinal o presente está noutra caixa que tem de ir procurar. Segue-se o segundo presente. A minha tia interrompe “Oh Glória…” e apresenta uma camisola com dois tamanhos abaixo – “Ai que troquei os embrulhos – a sua foi para a…” A minha mãe abre o segundo presente – Mais uma pista! A minha tia interrompe “Oh Glória…” e apresenta uma segunda camisola que lhe é pequena. A minha mãe abre o terceiro presente. Ai que ainda não é desta! Ainda tem de procurar o quarto. Em cada uma das pistas de referência colocámos uma palavra enigma. “Em…”, “família…”, “vamos…”, “ser…”. Como não tinha a minha filha, eu e a minha irmã decidimos fazer dos nossos pais as crianças da noite. A minha tia interrompe “Oh Glória…” parece anedota – mas era mesmo outra camisola pouco adequada. De cada vez que ouvíamos “Glória” já não conseguíamos suster a gargalhada. Os meus pais chegaram à última pista. Desembrulharam o presente – uma caixa de gelado de baunilha 🙂 – com um postal no seu interior. No envelope dizia “parisenses”. Foi este o presente família: uma viagem a Paris para os cinco. Nunca viajámos juntos. Que tiramos desta vida se não forem as memórias de momentos felizes?

A noite terminou às 4h da manhã. Porque chegámos a casa e quisemos passar um bocadinho de tempo à conversa – para fazer companhia ao Pierre – o dalmata da minha filha. Continuei a receber fotografias do Brasil. E conversámos ao telefone. A família da esposa do pai da Beatriz passou também a fazer parte da nossa família. Uma família alargada em que todos ganhamos.

E foi esta a minha consoada de Natal. Como acredito ter sido em muitas casas de Portugal. Temos o requinte no bem-querer. Mais do que nos castiçais de prata.

Continuação de boas festas.

Um abraço virtual. Feliz Natal!

Acordei sem vontade de me lavantar. Este Natal é um bocadinho triste para mim. Esta manhã sinto-o mais do que nos outros dias. A Beatriz costuma acordar-me para me dizer “mamã hoje é Natal” com aquele sorriso que lhe conheço, numa alegria contangiante. Este ano passaremos o Natal separadas por um Oceano. Ela está muito feliz do lado de lá. E eu faço por me sentir feliz, porque ela está feliz, do lado de cá.

Mais do que presentes, para mim o Natal é estar em família. Sinto-me uma previligiada por não termos problemas de saúde e por não desejar mal, ou invejar, quem quer que seja. Sinto-me em Paz. Comigo. E com os outros.

Eu e a minha irmã juntámo-nos para oferecer o nosso presente. Chamámos-lhe presente de família. Não posso escrever mais. Mas se há uma coisa que me faz sentir um bocadinho menos triste por não ter a Beatriz comigo, é poder fazer esta surpresa aos nossos pais. Amanhã conto-vos como foi :)!

O agoradigoeu tem sido o meu bloco de apontamentos. Não raras vezes releio o que escrevi. Volto a rir das peripécias. Emociono-me com outros textos. Não é tudo sobre mim. Mas é uma grande parte de mim. De tal modo que se criam amizades virtuais. Com pessoas que não conheço pessoalmente. Algumas de quem não sei a idade ou o sexo. Os amigos reais também me vão dizendo “sabes que também leio o teu blog!” A regularidade com que escrevo tem a ver com a minha disponibilidade. Física e não só. Mas gosto sempre. Mas mesmo sempre. Que estejam desse lado. Que me escrevam. Que escrevam – aqueles de vós que como eu também escrevem em blogs.

Desejo-vos uma noite quentinha. Junto às pessoas que vos são mais queridas. Com uma mesa rica em sabores. E que esqueçam o que não têm, para melhor valorizarem tudo o que a vida vos tem oferecido.

Um abraço virtual. Feliz Natal!

The Auteurs of Christmas ;)

No ano passado já tinham feito, mas este ano está demais!