Category Archives: …Peripécias de uma portuguesa em França

Há pelo menos 30 anos à espera dos aviões canadair de Espanha…

Estamos todos tristes e de luto e estupefactos e solidários com os bombeiros e com as famílias em luto…

Mas eu estou também muito irritada por achar que a tragédia poderia ter sido de menor amplitude.

O cheiro a fumo faz parte da minha infância passada em Tomar. O meu avô dormia todo o verão sentado no sofá da sala. Vigilante para proteger os seus e o que tinha.

Desde pequena que a notícia anuncia os meios humanos e viaturas no combate ao incêndio. E desde pequena que a notícia é acompanhada pela frase: “estamos à espera de aviões canadair de Espanha”.

Afinal quais são os meios operacionais dos Bombeiros em Portugal? O pordata diz que existem 472 corpos de bombeiros. Quantos são profissionais? voluntários? Os dados de 2013 indicam existir 6363 profissionais e 42592 voluntários. Fazendo as contas, existem 7 voluntários para 1 profissional!

Este é o Portugal exemplo dos PIBs e de todos os números de que o governo se orgulha. Acrescente-lhe este! 57 mortos e outros tantos feridos. Carbonizados, asfixiados… numa estrada em que os meios operacionais portugueses não os conseguiram salvar.

… e não se comportem como se se tratasse de um sismo numa zona sem risco sísmico. Portugal é um país de incêndios. Resta saber quando é que o governo determina um orçamento para os bombeiros e proteção civil à altura das necessidades.

A 1 de Setembro de 2017 completa-se um ciclo.

Estamos em Fevereiro. Abriu um lugar para professor-investigador em Fisiologia na Universidade de Nice. Decidi concorrer. A probabilidade de conseguir o lugar era mínima. Mas quem não arrisca não petisca – já repararam que temos ditados populares para tudo! 

30 de Março, data limite para submeter candidatura. CV científico e pedagógico. Projecto científico e pedagógico. Anexos comprovativos. 

Em meados de Abril recebo a notícia: shortlisted para audição oral. De 56 candidaturas foram selecionados 6 candidatos para se apresentarem a prova oral dia 12 de Maio.

12 de Maio. O dia em que o Papa esteve em Fátima. 

A prova consiste em 10 min de apresentação para apresentação do CV e dos projectos científico e pedagógico perante um júri de 12 pessoas. Constituído por igual número de investigadores e de professores – investigadores. Igual número de mulheres e homens. Igual número de membros da Universidade de Nice e de outras Universidades de França. E um Presidente. Após os 10 minutos sucedem-se 15 minutos de questões do júri. Segue-se a Prova de aptidão pedagógica. No momento é entregue uma folha onde se indica um tema, um público e a duração da aula. Somos dirigidos a uma sala de informática. 3h30 para construir o plano de curso com conteúdo, competências a desenvolver e estratégias pedagógicas. E ainda aula TD ou TP associada a esta aula teórica. Além disso, produzir o diaporama (power point) associado à aula. Segue-se 15 min de apresentação e defesa de material produzido e 10 min de questões do júri. Tudo em Francês.

Dos 6 candidatos eu era a única estrangeira. Eu não conhecia ninguém do júri. Apenas o Presidente que trabalha no meu instituto e apenas na formalidade do Bonjour. Havia uma candidata que está há 2 anos nesta equipa pedagógica. Existia uma candidata que está nos Estados Unidos e que pretende regressar a França. Em suma. Todos os candidatos eram excelentes.

Eu sabia que a probabilidade de ganhar era ínfima. E sabia que a única forma de conseguir seria de correr o risco de apresentar qualquer coisa de muito diferente. Uma nova visão do ensino na Universidade. Uma nova visão do professor. Muni-me de toda a minha experiência de ensino. E estudei todas as cadeiras de Fisiologia. E estudei estratégias de outras universidades do mundo. E apoderei-me das fraquezas do sistema clássico das aulas expositivos. E debato-me até à minha última gota de energia para argumentar a minha estratégia.

Foram as 5h mais exigentes da minha carreira. Saí da sala de audições sem energia para saber onde estava. As lágrimas escorriam-me pela cara. Caminhei sem rumo. Não tinha energia nem para falar. Começaram os primeiros telefonemas. Eu não sabia se tinha corrido bem ou não. Só sabia que tinha lançado uma bomba na sala à qual ninguém foi indiferente. Uns adoraram, outros detestaram. E eu debati-me com os que não gostaram até ao fim.

Liguei à Beatriz. Disse-lhe que não tinha conseguido. Ela disse-me “mamã tenho a certeza que foste a melhor”. Respondi que não. Ela disse “espera para ver os resultados.

Às 20h recebo a notícia. Fui classificada em primeiro lugar.

C’est enorme!!!! Se há coisa que aprendi é que por muito grande que pareça o desafio é preciso acreditar. E é preciso lutar pelas nossas convicções. São elas juntamente com as nossas fraquezas que nos tornam pessoas singulares e que marcam a diferença.

A 1 de Setembro início funções. 

Há muitos artigos a passar nos media nacionais que questionam porque é que os outros países gostam dos portugueses qualificados. O triste é não questionarem o contrário. Porque é que Portugal não se pauta pelo mérito. Se este concurso tivesse sido em Portugal não teria tido o mesmo resultado. Este lugar abriu para uma candidata. Só que eu fui melhor. O júri – IMPARCIAL – assim decidiu!

Próxima etapa: obter dupla nacionalidade!

Hoje senti…

… saudades de escrever aqui no blog.

Houve um tempo em que o blog fazia parte da minha agenda. Acho que nunca foi um diario, mas partilhei muito de mim ou da minha percepção de coisas varias. O C. trouxe-me esta serenidade que se chama rotina. Ha quem não goste desta coisa dos dias serem um pouco mais do mesmo. A mim da-me estabilidade.

O blog continua aqui. Tenho uma lista de temas sobre as quais gostaria de escrever. A preguiça e a falta de tempo (por causa do trabalho e das viagens e dos passeios…) tem adiado a pesquisa e consequentemente a publicação.

Um dos temas que tenho de explorar seriamente é esta necessidade de ocupar as crianças com trabalhos de grupo – ja para não falar dos 2 testes por periodo às 13 disciplinas que o 3° ciclo tem. E não suficiente, quando chegam as férias, toca de enviar ainda mais trabalhos.

Ha algum estudo que mostre que esta neurose por ocupar as crianças (e os pais) com trabalhos fora do tempo escolar contribui para a aprendizagem das crianças?

Obrigada por passarem por aqui.

 

“Vanessa vai à luta” no Teatro da Trindade. A não perder.

Lisboa continua a ser a cidade que sinto melhor conhecer. E curiosamente, desde que estou em França – e que mergulhei na cultura francesa -, (re)descubro uma Lisboa queirosiana muito francesa, que fazem do Chiado uma fusão cultural que muito aprecio. 

Ontem fomos ao Trindade. Assistir ao “Vanessa vai à luta”. Uma peça com muito humor sobre os papéis de género. Eu fui uma maria rapaz. A Beatriz é uma maria princesa. Reconheci-me na “Vanessa”. É bem verdade que cheguei a pensar “mas porque é que não nasci rapaz?” – ninguém me ofereceu pistas de carros telecomandados… só bonecas (Estou a ser exagerada neste plural). Rimo-nos imenso. A minha mãe, eu e a Beatriz. Três gerações de mulheres. O meu passado e o meu futuro genético. 

Com tristeza constato que o Teatro continua a ser um programa elitista em Portugal. Em jeito irónico comentei que a Beatriz se deveria chamar Beatriz Francisca, para não destoar do público. Tantos foram os João Bernardos, Vicente Marias ou Fredericas que ouvi. Por muito que Lisboa se diga um destino ao nível de Paris, Londres ou Barcelona falta-lhe ainda muito para estar a esse nível. Os bistrots, as padarias, as champanheiras e outros afins são modas que não passam disso. Espaços vintage inspirados noutras moradas que se dizem portugueses por colocar a loiça Bordalo Pinheiro (ou uma imitação baratucha) ou os poemas de Fernando Pessoa nas paredes. Falta programação cultural. Falta educar para a cultura. É difícil levar as pessoas ao Teatro. Levem o Teatro aos cinemas, por exemplo. Penso num cinema em Paris que ao domingo de manhã passa clássicos da disney a preto e branco acompanhados por piano. As crianças adoram e os adultos também. As salas de cinema dos shoppings de Lisboa poderiam propor alternativas culturais. Eles têm o público. Basta ser atractivo o suficiente para o seduzir. 

Ontem a Beatriz queria ir ao cinema. Porque as amigas também íam. Eu decidi que iríamos ao Teatro. De início ela não gostou da ideia. Mas por fim adorou. 

Seguiu-se a Bertrand. E um livro que espero que não vá esquecer: “as mulherzinhas”. 


Um bom domingo.

Neve, neve e neve… a magia da montanha.

Passei o último fim-de-semana na montanha, mais precisamente na estância de ski de Foux d’Allos. 

Foi um fim-de-semana com muita neve, muitas quedas de snowboard, muitos beijinhos, muitas calorias entre crepes, raclette e afins… e muitas paisagens de cortar a respiração para quem cresceu no Ribatejo português.

Ora vejam…





Parece que viajei para tão longe… mas fica aqui pertinho…