Category Archives: …os livros que li

“Que esperam os macacos” de Yasmina Khadra

“Rien de grave” de Justine Lévy

Continuo a ler em francês. No formato “livro de bolso”. E estou absolutamente viciada. “Rien de grave” foi o meu último livro. 

  

Reencontrei-me em Louise. Ou nas palavras de Lévy.

  
“Amar não quer dizer que nos parecemos. Amar não quer dizer sermos iguais, comportarmo-nos como gémeos, que acreditamos inseperáveis. Amar é não ter medo de se separar ou de deixar de amar. Amar é aceitar a queda, sozinho, e de se levantar, sozinho. Eu não sabia o que é amar, tenho a impressão de que hoje sei um pouco mais.”

 
   
E eu estou farta, ao mesmo tempo, de ter atenção. Estou farta da miopia, da surdez, do mutismo. Mas estou farta, também, de estar fechada em mim mesma com todos estes sentimentos que fiz prescrever, todas estas palavras que eu nunca mais quero dizer, antes morrer que dizê-las, digo a mim própria, o ferro-velho de palavras usadas que outrora serviram, é como o meu coração, e o meu corpo, eles também usados de ocasião, eles também amaram, sofreram e depois? Eu não me vou reencarnar por isso, nem transformar-me na essência de uma outra, elas estão aqui, estas palavras, de qualquer forma elas estão na minha cabeça, na minha garganta, Pablo bebe-as quando me beija, ele compreende-as mesmo que eu as detenha dentro de mim, acreditas no quê, idiota? Acreditas mesmo que eu não as ouço, essas palavras de amor que tu não me dizes? Claro que é ele que tem razão. Sinto vergonha, e sinto vergonha de ter vergonha. Tenho vergonha de as pensar, as palavras, e ainda mais vergonha por não conseguir dizê-las. Estou farta deste frio em mim. Farta de nunca sentir o quente ou a dor. Farta de passar ao lado da vida, da felicidade, da tristeza, das pessoas, dos desafios, da morre. Merda para a falsa vida. Merda para o negro, o silêncio, a anestesia, os gatos, os jeans. Ele tem razão, Pablo. É preciso parar de não viver. Parar de não chorar. Parar a retenção de lágrimas, assim vou ficar com celulite na cara, à força. Parar de ter medo de estar viva. 

(…)

Parar o amor sublime, os amantes belos e nobres e perfeitos. De manhã temos má cara, temos mau hálito, é assim, é preciso aceitar, é assim a vida.

Em modo férias… na véspera de mais uma viagem com Beatriz.

Estou em Lisboa. Na véspera de viajar com a Beatriz para uma nova capital da Europa. “Adoro viajar contigo. Mostrar-te os mundos que o mundo tem. Os museus, os teatros, as telas que pintamos, os desafios… são o ensaio de mim a tentar inspirar-te a ti.” lembram-se?

Acho que acabei por não partilhar convosco o resultado dessa carta de amor na forma de livro, faço-o hoje!

    
  
  
203 páginas que resumem 10 anos e 9 meses de vida da minha filha. E a minha também. Porque com ela nasci mamã. E não me lembro de mim antes dela.

Um bom dia.

Bom ano 2016!

New year starts. Estou na Côte. Começo o dia sobre rodas. Como no ano passado. Hoje o dia está cinzento. O mar está sereno e os olhos viram-se para as montanhas. Espera-se neve nos Alpes este fim de semana. A montanha é um vício. Tal como o é o mar e a brisa que dele parte. Como se nos dissesse Bom dia…

Delphine de Vigan  é a minha mais recente descoberta em matéria de autores franceses. Começo o ano com as suas palavras. É comum dizer-se que tudo o que queremos expressar já foi escrito por alguém, de uma forma mais bonita, mais profunda… Delphine, em “les heures souterraines” incomoda, perturba… Coloca em palavras a realidade deste ritmo frenético em que vivemos. Adjectiva vidas tão cheias de coisa nenhuma.

Ontem perguntaram-me por que não arrisco escrever um livro. “Porque a cada vez que leio um livro sinto que nunca conseguirei escrever assim”! Na verdade tenho medo. Tenho medo de não ser capaz. Tenho medo de ser capaz e me tornar prisioneira dos personagens. E depois órfã. Tenho medo de lhes dar vida, porque há em cada um deles uma parte de mim, do que vi, do que li, do que vivi…

Ter a vida que escolhemos e não aquela que nos sobra torna-nos, também, vítimas de um excesso de controle. Sobre nós próprios. Onde o desafio é sermos capazes de o perder. Esse é, porventura, o meu maior desafio.

Bom ano 2016.

Obrigada por estarem desse lado.

Agnès Martin-Lugand. As minhas últimas viagens. Na forma de livro.

De regresso à Côte d´Azur. Depois duma semana que passou a correr… Uma semana de filha, de bébés, de família. Uma semana de preparação para o novo ano escolar que começa. Uma semana em que substituí os artigos científicos por romances.  Agnès Martin-Lugand fez-me viajar. Emociou-me. Viciou-me. Neste tempo de guerra, desigualdade e êxodo humano… senti necessidade de mergulhar em estórias sem época, como são todas as estórias de amor. Estórias escritas por uma mulher. Vividas por mulheres inventadas (ou talvez não).

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“Les gens heureux lisent et boivent du café” (2013) foi o primeiro livro que li. (Existe tradução em português). Trata-se da estória de Diane, uma mulher que, para se reconstruir após a morte da filha e marido, parte para a Irlanda. Um livro que me fez (re)visitar um local onde nunca fui, mas que há muito quero ir: Irlanda. Desde o filme “Leap Year” (sobretudo a zona em que são filmadas as últimas cenas) que tenho esta viagem na agenda. Mas como diz uma amiga. “Há viagens em que o mais importante não é o destino, mas a companhia” (T. fazes-me falta!). Este é um dos casos. E a companhia ainda não aconteceu…

“La vie est facile ne t´inquiète pas” (2015) é a continuação do “Les gens heureux lisent et boivent du café”. Após um ano na Irlanda Diane regressa a Paris. Regressa ao seu café literário no Marais, onde na porta tem escrito “As pessoas felizes lêem e bebem café”. Um romance entre as margens do Sena, o Marais e Montmartre. Que me faz (quase) ter vontade de viver uns tempos em Paris.

“Entre mes mains le bonheur se faufile” (2014) é um romance diferente. Iris não é uma mulher que se reconstroi como Diane. É, na verdade, uma mulher que se descobre e afirma. Uma mulher a quem os pais roubaram o sonho de vida, quando ainda tinha 18 anos. Que a fizeram julgar incapaz. Uma mulher que, perdido o sonho, correspondeu às expectativas sociais. Casou com o médico da vila. Viveu na sua sombra. Até ao dia em que percebeu que poderia ser diferente. Descobriu-se mulher. Descobriu-se feminina e atraente. Descobriu-se determinada e capaz. Inspirou-se naquela que seria a sua mentora e simultaneamente castradora, Marthe. E Gabriel…

Amanhã regresso aos artigos científicos. Mesmo que ainda esteja sob o efeito dos romances que li. Às vezes sinto-me orfã dos personagens. Sinto-me orfã da Diane e da Iris. E da Juliette de “Moment d´un couple“. E de Irene de “De amor e de Sombra“. E de tantas outras mulheres que fazem parte de mim…

Boa semana!