Category Archives: …Em jeito de crónica

Elena Ferrante – a Amiga genial

Tenho andado entusiasmada com a tetralogia de Elena Ferrante. Estou no terceiro livro (a idade intermédia).

Trata-se de uma história de vida(s) que começa na infância, na Nápoles do pós-segunda guerra. Duas amigas de um bairro pobre. A filha do sapateiro e a filha do porteiro. Uma inteligente. Outra com dificuldades. Uma a quem os pais não deixaram estudar. Outra a quem os pais autorizaram sonhar. Livros que atravessam 50 anos de vida. Por vezes pensamos que a história vai ser uma, dez paginas depois o fim adivinha-se outro. Mas como na nossa vida, neste(s) livro(s) a incerteza é a constante que nos faz sentir vivos e nos tenta a virar a página.

Em Portugal tem o título de “a amiga genial”. Uma das minhas surpresas literárias deste verão. 

Bom fim de semana

Incoerências do atendimento ao cliente… 

Contexto I – ourivesaria de rua numa vila ribatejana próxima de Lisboa. 15h.

A empregada chega 15 min atrasada para abrir a loja. Pede inúmeras vezes desculpa. Diz que foi o cabeleireiro. A senhora olha para mim com aquele ar: “tu também devias ir dar um jeito nesse cabelo”!

Escolho o que procuro. Pago. A senhora volta a repetir que é uma chatice. É uma chatice lavar o cabelo. Que não tem tempo.

Eu digo para mim que concordo. Que é preciso ter tempo – e paciência – para ir ao cabeleireiro. 

Mas…

A senhora completa a frase. É uma chatice lavar o cabelo em casa. Não tenho tempo com os miúdos. É por isso que tenho de ir ao cabeleireiro à hora de almoço. 

Hum….

E eu a pensar. Amiguinha se pagasses 60€ para lavar a cabecinha no cabeleireiro bem que arranjavas tempo! (Ai o que eu gosto dos queixumes que Portugal está mal e tal!)

Contexto II – Joalharia na Av da Liberdade. 

Estas joalharias sempre me intimidaram. O facto de terem a porta fechada e um ar requintado no interior fazem-me pensar que não me estão acessíveis. Acontece que corri todas as ourivesarias de rua e nenhuma tinha o que procurava. “Só as casas que representam essas marcas é que têm esses produtos” foi a frase que mais ouvi. Foi desse modo que descobri a Dara Jewels.

Um tratamento excepcional (num sofá que não me importava de ter em casa), mesmo tendo eu o cabelo despenteado – como na generalidade dos dias -, uma mala sem marca ou umas botas sem salto. Fui mais bem atendida nesta joalharia do que tantas vezes na parfois ou na casa batalha. 

As incoerências do atendimento ao cliente… é o que lhe chamo!

Os natais da minha infância…

Estou de regresso a Lisboa para passar o Natal.

Não sei se vos acontece o mesmo, mas tenho saudades dos natais em que era criança.

Nas minhas memórias esta época era temperada de mais frio, de muitas camisolas quentes, da fartura que não existia no resto do ano, de sabores que se misturavam com o fumo da lenha e o perfume do azeite ao lume.

Não me recordo de mesas bonitas com serviço de flores de azevinho ou de copos de cristal. Lembro-me apenas dos olhos a arder do fumo. As maçãs do rosto vermelhas. A casa cheia. Os primos muitos. O arroz doce com motivos de flores desenhados, em canela, pela minha mãe. Os fritos de abóbora. O vinho em jarros tirados do barril. O sumo de groselha que ainda hoje é o meu preferido. A canja de galinha – que demorava horas a cozer -, O bacalhau com couves que nunca comi em criança, o pão quente de forno a lenha com manteiga…

E lembro-me, sobretudo, de passar o Natal em Família. Como todos os anos há 38 anos. Felizmente. Afinal, é isso que mais importa.

 

 

 

 

 

Lisboa romântica. A nossa Lisboa.

Lisboa está diferente. Os prédios renovados. Os milhares de turistas. A proliferação de tuk tuks e ubers e hostels e airbnb´s. Os restaurantes com lista de espera e os espaços vintage com loiça Bordalo Pinheiro. Os terraços que vendem a luz e o rio e os sabores tradicionais (mesmo que provenientes de franchisings). Os miradouros que se enchem de atracções e carteiristas e vendedores de droga (ou louro e farinha).

Como em todas as mudanças há coisas boas e outras menos boas. Um dos grandes desafios da cidade será de manter a sua identidade e a identidade das suas gentes. De que vale ter a Graça ou Alfama ou a Mouraria saturada de airbnb´s e hostels, se os moradores que lhe dão alma foram obrigados a procurar outras moradas? De que vale ter restaurantes que adaptam os seus menus a sabores franceses, se esta é a oportunidade de mostrar aos que visitam Lisboa a riqueza da gastronomia portuguesa? De que vale ter uma Lisboa acessível às carteiras do norte da Europa quando os lisboetas não podem usufruir dos seus monumentos, restaurantes e esplanadas?

Lisboa continua a ser a cidade que melhor conheço. A cidade que se avista das muralhas do Castelo. As paredes de outros tempos da loja Tous do Chiado. A fuga ao Oriente pelo interior da Casa do Alentejo. O nascer do dia nas Portas do Sol. A mousse de chocolate do terraço do Hotel Bairro Alto. As margens do Tejo em bicicleta. O pôr-do-sol no Cais das Naus. A estação do Rossio que se ilumina. A calçada portuguesa que nos ilustra os passos. As fachadas de azulejos e os muros de grafittis. As sardinhas que não gosto mas que fazem os prazers gustativos de quem gosto… Foi assim o meu último fim-de-semana. Lisboa romântica. Nossa Lisboa…

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Como diz a minha querida amiga Teresa. Mais do que o destino, importa com quem o vivemos.

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Bom fim-de-semana.

Voltar à aldeia… ou ao que dela resta!

Voltar à aldeia já não é a mesma coisa!

Este verão regressei à aldeia. À aldeia do meu pai – Proença-à-Velha – no distrito de Castelo Branco. Com tristeza senti que o Portugal interior se extinguiu. Um Portugal de saberes e tradições que morreu com as suas gentes. Não encontrei as velhinhas vestidas de negro a regressar da missa. Nem os velhos, sentados nos bancos de pedra no largo, a ver quem passa. Morreram. E depois deles existiram aqueles que partiram. Como os meus pais. E os meus tios. E os meus primos.

Vi casas fechadas. Casas à venda. Casas em ruína. Vi outros tantos como eu que voltam à aldeia. Que provavelmente se questionam como eu. Sobre o sentido de voltar a um lugar que já não existe. São as pessoas que dão alma aos lugares que habitam. Uma aldeia sem as suas gentes torna-se um espaço encerrado no mutismo de ruas vazias. Nem mesmo as moscas ficaram.

Este foi o meu olhar… sobre um Portugal que agora vive apenas na minha memória.

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