Este texto tem tanto de íntimo como de libertador. Para que não se repita. 

Hesito antes de escrever. De um lado o pudor. A intimidade. Do outro as palavras surdas que ressoam nos meus ouvidos. A incapacidade de verbalizar as respostas às perguntas que me colocam. O agora digo eu nasceu desta particularidade de por vezes me ser mais fácil dizer com os dedos, para que desse lado me ouçam com os olhos. Hoje escrevo para mim. Para duas ou três pessoas que procuram as respostas ao que se passou. E para pessoas que não conheço, e que de alguma forma se reconheçam no que escrevo.

Na terça feira uma amiga dizia-me “já viste! A tua vida resolveu-se de repente. Ganhaste uma posição à vida. Publicaste o trabalho que fizeste num bom jornal. Estás bem com Christophe. A Beatriz está crescida!” Sim, é verdade. Respondi. E tive vontade de dizer. Mas nem tudo está bem. Mas não disse nada.

Na segunda feira fui à consulta de ginecologia. Atraso de menstruação de 2 semanas. Teste de gravidez positivo. Perda de sangue na véspera. Cólicas abdominais. Médico  fez ecografia e lança o veredicto: ” a senhora não está grávida. Não existe nada no útero.” Confusa, disse-lhe que alguma coisa estava errada porque o teste tinha dado positivo. “Existem falsos positivos” foi a resposta seca que recebi. “Mas eu não tenho menstruação”. “Tem de fazer análises. Só depois de ter os valores da bhcg é que sei se a senhora está grávida ou não, e se tem uma gravidez evolutiva. Secalhar a senhora esteve grávida e perdeu o embrião”. “Mas isso deixaria traços?” “Bom faça as análises e depois conversamos”. 

Saí do consultório sem saber o que pensar. Estava grávida mas não estava. Comecei mesmo a duvidar de mim mesma. A achar se seria uma gravidez psicológica. E portanto eu sou uma pessoal racional. Facto é que o teste da farmácia deu positivo, atraso de menstruação… mas nada no útero. Segue-se o laboratório de análises. Duas colheitas espaçadas de 48h.

Terça feira sai o primeiro resultado. bhcg positivo 18900 ui. O laboratório enviou resultado para o médico. Há que esperar pelo segundo resultado. Ok. Não é uma gravidez psicológica. Seguem-se os fóruns da internet. Veredicto online: gravidez ectopica ou gravidez multiembrionaria não detectável no útero nesta fase de gestação. Aguardo para a segunda análise. No meu telefone aparece uma mensagem no WhatsApp “como estás?”. À generalidade das pessoas teria respondido “está tudo bem”. A Lili é minha amiga há mais de três décadas. E entre nós existem outras respostas diferentes do “tudo bem”. Respondi “mais ou menos”. Do outro lado a pergunta “então?”. Contei-lhe o que se estava a passar. “Amiga tens de ir ao médico. Isso é uma ectopica. Não é possível com esse valor de hcg que não se veja no útero”. Eu sabia que ela tinha razão. Mas estava bem. Decidi esperar pela segunda análise. 

Sexta feira. Estou na Praia com a beatriz. Recebo o resultado: 25000 ui. Ligo ao médico. “Terça feira passe no consultório para ver o que se passa”. Desliguei o telefone. Fui comprar um gelado. Tudo estava bem. “Será que estou grávida de gêmeos e é por isso que não se via? Será que é ectopica? Mas o médico não parece preocupado…”. 18h30. Decidimos regressar a casa. A 100 m da Praia. Queria passar no super-mercado. Senti uma dor aguda. “Princesa, a mamã precisa de ir à casa de banho. Vamos a casa e depois vou ao supermercado!”. “Está bem. Eu fico a tomar banho enquanto vais às compras”. Não sei como consegui chegar a casa. Na minha cabeça só pensava um passo à frente do outro. Em casa deitei-me no sofá da varanda para ver se as dores passavam. Beatriz foi para o duche. Escrevo à Lili. “Amiga vai já para o hospital. As dores podem ser hemorragia interna. Vai já ouviste? Olha que podes morrer assim.” 19h30. Já não me conseguia mexer. Beatriz estava na sala sem dar por nada. Ligo ao Christophe. “Vem buscar-me por favor. Preciso de ir às urgências!” Expliquei à Beatriz que iria só ao hospital porque não me estava a sentir bem, mas que Christophe regressaria a casa assim que me deixasse lá.

21h dou entrada no hospital. 21h30 tenho a primeira queda de tensão: 7/5. Os paramédicos assustam-se. Ligam para a especialista de serviço. Colocam-me numa sala com um médico e uma enfermeira. Preparação para o bloco de operação. Caso necessário. Segue-se o serviço de especialidade. Segunda queda de tensão durante a eco. Veredicto: gravidez ectopica. Hemorragia interna. Bloco urgente. “Madame Pousinha, madame Pousinha, yeux ouverts, yeux ouverts,…” recuperei os sentidos. Enquanto me transportavam na maca para o bloco liguei à beatriz. Na voz mais calma que encontrei expliquei que ficaria no hospital durante a noite. Mas que no dia seguinte já estaria bem. Liguei ao Christophe. Que vinha a caminho do hospital para saber de mim. Pedi-lhe para tomar conta da Beatriz. Não valia a pena vir ao hospital. Eu ia entrar no bloco. “Je t’ecris quand ça sera finis. Je t’aime mon coeur”.

Pergunto quem me vai operar. A mesma médica que há pouco me mantinha acordada. Pergunto ao anestesista qual é a anestesia. A médica explica-me o procedimento enquanto os outros me posicionam. Oxigênio. E a injeção que me colocou a dormir. Inspire… 

Muito muito ao longe ouço “madame, madame… Je suis la avec vous. Je pars pas d’ici.” Não sabia bem onde estava. Tinha dores. E procurava aquela pessoa ali ao meu lado. Porque tive medo. Pela primeira vez. A médica veio. Muito doce e meiga. “A operação correu bem mas perdeu muito sangue. 2,4L. Tivemos de fazer transfusão. Foi uma intervenção de 3h. O seu médico foi negligente – poderia ter tido sequelas se tivesse chegado mais tarde ao hospital. A trompa não consegui salvar mas tinha cicatriz antiga de uma possível infecção. Foi por isso que teve a gravidez ectopica.” 

Às 5h30 passaram-me para o quarto. Escrevi ao Christophe. Que ainda não tinha conseguido dormir. Ficamos os dois sem palavras. Não vale a pena pensar no que poderia ter sido. Às 6h a Beatriz diz “olá” no whatsapp. Disse-lhe que estava tudo bem. Que viria com Christophe ao meio-dia e que passaria a tarde comigo. 

Chegaram com flores e frutas e mimos. E agora recupero… “mamã a avó hoje vai ligar, o que é que eu digo?”. “A mamã liga princesa, não te preocupes!”

Sinto que no azar tive a sorte de estar rodeada de pessoas que me protegeram e tomaram decisões rápidas. Todos sem excepção foram incríveis. E não sei quantas vezes disse “merci”. A médica voltou todos os dias. Com o mesmo sorriso. A mesma empatia. Estarei com ela amanhã e no próximo mês. Acho que lhe devo estar aqui hoje. A escrever este texto que tem de tão íntimo como de libertador do que sinto. Para que não se repita. Gravidez ectopica pode, de facto, ser grave.

E a ti Lili… tu sabes!

5 responses to “Este texto tem tanto de íntimo como de libertador. Para que não se repita. 

  1. Pingback: Este texto tem tanto de íntimo como de libertador. Para que não se repita.  – A luz de bons preceitos humanos, refletirá um estado de equilíbrio harmônico com tudo que vemos e com o que não vemos .Apenas sentimos.

  2. Minha querida amiga… Li o teu relato… Incrível! Desejo que recuperes rápido. Tudo de bom. Forte abraço.

    Gostar

  3. O pior já passou, desejo as melhoras e uma recuperação rápida. (A sorte protege os audazes e os inteligentes ) 🙂
    beijinho

    Gostar

  4. Votos de rápidas melhoras e seja feliz!

    Gostar

  5. Muitos beijos Paula.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s