Marselha… e a (surreal) ida ao Consulado :\

Estou de regresso ao laboratório depois de uma (quase interminável) semana em Marselha.

A formação em cirurgia correu bem. Só utilizámos o porco como modelo no módulo de sutura – felizmente – o dito cheira mal que se farta, tem uma pele gordurosa, dura e nojenta. Senti que estava na aula de texteis – quando aprendi a fazer ponto cruz e derivados -, mas na versão coser pele. “A pele do porco é a mais parecida que existe com a pele do Homem”, lá dizia o formador orgulhoso do seu modelo e eu com aquela cara de “ca nojoooo”. O assistente técnico trouxe-me uma mascara – deve ter topado a minha expressão de empatia pelo exemplar suíno! Mas eu fiz-me de forte e disse que não! é que entre tirar as luvas todas gordurosas, colocar a mascara, recolocar outras luvas,.. eu queria mesmo era sair da sala :)!

Formação à parte, Marselha não me seduziu. Cheira a excreções azotadas líquidas por todo o lado. é uma incontinência urinária que não se aguenta. As ruas são sujas e deu-me a sensação de que toda a cidade está em obras. Fartei-me de comer (e de beber vinho). Mas fomos selectivos. Desde o l’ entrecôte acompanhado de vinhos frutados e tabua de charcutaria com queijos (de que não sou apreciadora) às variedades gastronómicas menos francesas. O vinho esteve sempre presente – mesmo que me tenha espantado por existir produção de vinho com 13% álcool em Israel ou Argélia.

Mas o momento hilariante foi a minha ida ao Consulado de Portugal em Marselha. Telefonei para saber se seria possível marcar uma hora – já que em França tudo é tratado por rendez-vous. “Não. Aqui não aceitamos marcações. Tira a senha e aguarda pela sua vez. E tem de se inscrever. Precisa trazer 2 fotografias.” Ups! Fotografias. Toca de ir a uma daquelas máquinas que se deveriam chamar “Torna-te criminoso em 2 minutos”. Fiquei mais que muito feia. Mas não importa. Avenue du Prado, 141. Vi a bandeira portuguesa na janela. Senti-me mais próxima do meu País – é estúpido, mas é verdade! 2° andar. Entrei na sala e… voltei à porta de entrada para ver se me tinha enganado. Achei um bocado estranho ser a única branca. Tiro a senha. Espero. E espero. E espero. E enquanto espero distraio-me com as crianças aos pulos. A chico-espertisse. As conversas – pareceu-me que aquela gente estava toda ali por dois motivos: ou para casar ou para pedir a nacionalidade portuguesa para filhos e familiares. Após 2h30… chega a minha vez!

“Está há 2 anos em França e ainda não está inscrita no Consulado?” Não?!? “Hum… Então vamos fazer a sua inscrição. Tem o seu cartão de cidadão? Casada ou solteira?” Sou divorciada. “Divorciada? Ai é!? está cá em França e é divorciada? Está cá sozinha?” Ahm!?!? Fiquei sem saber o que dizer. “Deixe estar, isso também não é importante. Qual é a sua profissão aqui em França?” Sou investigadora. “Ah oui!?!? Investigadora?” Sim, aqui designa-se Chercheur CNRS CDD. “Hum vamos ver… Aqui no sistema não posso colocar investigadora. Aqui só tenho empregada de limpeza, porteira e coisas assim. Investigador não existe.” E eu fiquei com cara de parva a olhar para a senhora – SURREAL. “Olhe vou colocar diversos na sua profissão”. Deve ser por isso que nos consideram (aos portugueses) versáteis e polivalentes. Breve. Tratei do documento que motivou a minha ida ao Consulado. “Siga-me. Para pagar tem de ser com o meu chefe.” Chegamos à porta do gabinete do chefe. Fechado. “Olhe tem de esperar. Ele foi comprar uma sandes, está na hora de almoço, sabe?” Oh se sei! estou aqui há mais de 2h… “Aguarde um bocadinho na sala de espera, que ele não deve demorar.” Chegou passado algum tempo.  Entro. Pergunto se posso pagar com carte blue (multibanco). “Não. Aqui só aceitamos pagamento em líquido” Em quê?!?! “Em líquido, dinheiro vivo. Há algum tempo ainda aceitávamos cheques mas desde que um magano nos passou um cheque sem cobertura, só aceitamos em líquido.” Lá fui eu à procura de uma caixa multibanco – em Portugal há um em cada esquina. Não é o caso em França. Retornei ao Consulado com os 30€ e… com vontade de não voltar!

Mais uns dias e estou de regresso a Lisboa :)!

E era isto!

10 responses to “Marselha… e a (surreal) ida ao Consulado :\

  1. isto fez-me lembrar no dia que me fui inscrever no centro de emprego … fui as 9h da manha e cheguei a casa as 20h (e correndo o risco de nao ser atendida por falha tecnica!)

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  2. eu não consigo parar de sorrir… acho que sou das poucas pessoas que consegue ver o filme ….
    :)))
    (por vezes nem conto mais porque ninguém acredita!…. )

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  3. Bom, parece que cada consulado tem a sua lei… por exemplo em Argel a inscricao é gratuita. Paga-se apenas, uns 12 euros, se quisermos o cartao, que é facultativo.

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  4. Uma autêntica anedota…
    Como se costuma dizer: contado, ninguém acredita!
    Muito mau! :\

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  5. Penso que a Senhora Investigadora está realmente a contar uma história da carochinha. O tal chefe que foi buscar a sandes sou, concerteza, eu próprio. Indentifico-me sem problemas, Carlos de Sousa, Vice-Cônsul. Com efeito e para evitar que feche o Consulado aos utentes, entre o meio dia e as duas, os funcionários vão almoçar por turnos, ficando sempre alguém ao atendimento do público (2 funcionários sobre 4). Isso evita que tenhamos que pedir aos utentes que saiam do Consulado durante esse período. A tal sandes é o meu almoço diário, e apesar de ter uma hora para almoço, apenas utiliso 20 mn, o tempo de ir buscá-la e continuar a trabalhar enquanto a ingurgito. O certificado custa 10,00 €, não sendo obrigatório. A fotografia é para o processo de inscrição consular. O pagamento não é aceite em cheque por ter havido problemas com alguns cheques sem cobertura. O Consulados não dispõem de sistema multibanco, provavelmente pelos gastos que ocasiona ter esse tipo de material (cerca de 400,00 € mensais). A caixa multilbanco é no mesmo prédio do Consulado, concretamente no rés do chão, pelo que a história de ter um banco a cada esquina, não tem qualquer cabimento. Quanto à palavra mangano, nunca a utilizo, pelo que essa informação é totalmente falsa. A tabela dos emolumentos está afixada e a informação sobre o facto de não serem aceites cheques está igualmente assinalada. No que diz respeito ao atendimento moroso, é óbvio que o Consulado estando sempre a abarrotar é natural que a espera seja longa e interminável, vá a Portugal a qualquer loja do cidadão e provavelmente ainda vai esperar mais tempo. A última vez que o fui a uma loja do cidadão em Portugal esperei 4 horas. Claro que não manifestei qualquer descontentamento, por aompreender a situação. A carroça não pode ir à frente dos bois. Os comentários que tece sobre o seu divócio não me parecem realistas, ninguém neste Posto lhe iria reprochar que estivesse em França sózinha. Recebemos neste Consulado centenas de pessoas nas mesmas condições. Quanto às marcações, creio que os utentes estão satisfeitíssimos com essa forma de actuar. Com efeito há Consulados que utilizam o sistema de marcação, e a maioria dos utentes queixam-se que têm prazos de espera que excedem três meses para serem atendidos, pelo que, obviamente, vir a um Consulado e ser antendido no mesmo dia, é lógicamente uma óptima opção e uma satisfação para os mesmos.
    Os interessados vêm efectivamente para tratar de todo o tipo de assuntos. Para além dos que mencionou, também tratam de cartões do cidadão, passaportes, procurações, obtenção de certidões, reconhecimentos de assinatura, etc.
    O seu comentário sobre a fauna que frequenta o Consulado parece-me algo racista e leviana, pelas simples razão que em Portugal a cor não atribui nacionalidade, é apenas um direito e este Consulado recebe, efectivamente, todos os portugueses, qualquer que seja a sua cor, sem discriminação. Se o Universo actual indica que a maioria dos utentes são de outra cor que a branca, é apenas o reflexo da comunidade portuguesa residente na nossa área de jurisdição. Informo igualmente que o programa de gestão consular permite colocar a profissão de Investigador. Creio que como investigadora, e sendo, em principio, alguém com uma cultura certa, tem ainda mais obrigação e responsabilidade, para compreender os condicionalismos existentes. Quis alimentar o seu blog com comentários sobre um Consulado, mas devia ter pensado que os seus comentários também são lidos pelos funcionários do Consulado a que se refere com tão pouca consideração. Se achou piada aos mesmos nós aqui não os apreciámos.

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    • Boa tarde. Agradeço o seu comentário ao post que escrevi há algum tempo. Na verdade fiquei desiludida com o atendimento do Consulado. E não me parece que exista a profissão investigadora – ou pelo menos o “diversos” que me foi atribuído teve por justificação a ausência de categoria mais adequada. No final obtive o documento que queria. As suas interpretações são, no entanto, exageradas e com consequentes conclusões que me parecem também abusivas. Os seguidores do blog conhecem a minha ironia/sarcasmo a que me permito na qualidade de blogger. E nesse papel eu tenho a liberdade de expressão assim como também permito o direito à participação de todos os que se sentirem visados como sua excelência. Boa tarde.

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  6. Curioso que a cerca de 3 meses atras liguei para o Consulado por causa de uma certidao de nascimento, e a pessoa que me atendeu, me informou para enviar uma copia do BI + cheque de 10€ + 1 envelope carimbado. Agora pergunto eu!!!! Como ficamos senhor Vice-Consul?

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  7. Bom, e qual é o problema de ser a única branca no consulado? Pelos vistos, não sabe que há muitos caboverdeanos em Marselha que têm dupla nacionalidade (portuguesa e cabo-verdeana). Quanto ao formulário electrónico em que não existe a menção “investigador”, parece-me algo estranho, mas pronto… quando me inscrevi no consulado, ninguém estranhou o facto de ser professora e tradutora. Quanto ao pagamento em dinheiro líquido, a senhora não deve saber que é a norma geral nos consulados dos diferentes países – por muito chato que seja.

    É chato termos de esperar tanto tempo no consulado? É, sim senhora. Seria melhor se os serviços funcionassem melhor? Claro que seria. Só que acontece que a área consular de Marselha é enorme (e só agora foram criados postos consulares em Nice e em Montpellier) e os funcionários são poucos.
    Pois é, minha senhora, é uma chatice… mas é a vida.

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  8. Bom, e qual é o problema de ser a única branca no consulado? Pelos vistos, a senhora não sabe que há muitos caboverdeanos em Marselha que têm dupla nacionalidade (portuguesa e cabo-verdeana). Quanto ao formulário electrónico em que não existe a menção “investigador”, parece-me algo estranho, mas pronto… Quanto ao pagamento em dinheiro líquido, a senhora não deve saber que é a norma geral nos consulados dos diferentes países – por muito chato que seja.

    É chato termos de esperar tanto tempo no consulado? É, sim senhora. Seria melhor se os serviços funcionassem melhor? Claro que seria. Só que acontece que a área consular de Marselha é enorme (e só agora foram criados postos consulares em Nice e em Montpellier) e os funcionários são poucos.
    Pois é, minha senhora, é uma chatice… mas é a vida.

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