Eu e outras coisas sem importância.

Se há pessoa que gosta do seu trabalho, essa pessoa sou eu! Gosto. Gosto. Gosto. Isso é irritante. Ou melhor. Isso pode ser irritante. Até para mim. E agora estou aqui. Com papeis e rascunhos e ideias. Com os olhos a arder – e aquela vontade de os fechar -. Escrevo. Leio. Apago. Escrevo. Leio. Ainda não está bem. Tem de ser claro. Apago. Escrever ciência é este exercício. Posso abreviar. Escrever é este exercício. Tem de ser fluido. Tem de ser simples. Escrevo. Está melhor. Posso continuar.

Os dias no laboratório têm sido exigentes. Sou daquelas pessoas que trabalha bem sob pressão. Mas começo a sentir que a pressão se está a tornar crónica. Há dias em que a tensão muscular é tal, que chego ao fim do dia sem quase me conseguir mexer. O pior é que ninguém me faz correr. Sou eu.

Mais do que património material, quero deixar à minha filha a imortalidade do nosso nome de família. Acontece em cada artigo que publico. Alimento a ideia de que um dia ela terá a curiosidade de ler. De saber as estórias dentro de cada uma das descobertas. E eu vou gostar de lhe contar. Não fosse eu, sobretudo, uma contadora de estórias. 

A minha mãe alimenta o sonho de me ver escrever um romance. Daqueles que se vendem nas livrarias. Talvez um dia surja a oportunidade de o escrever. Corrijo. Talvez um dia tenha a capacidade de o escrever. Gosto da ideia. De ser arquitecta com tijolos de nuvens impressos em muros de papel.

Um dia. Quem sabe!?

5 responses to “Eu e outras coisas sem importância.

  1. “De ser arquitecta com tijolos de nuvens impressos em muros de papel.” Só por essa frase concerteza que compraria o teu livro.
    Vou ser sincera eu adoro fazer ciencia, descobrir/aprender novas coisas fico tao entusiasmada com isso que parece o dia de natal e ver as prendas só para mim quando era criança! E percebo a parte do legado que falaste, também penso assim, nao tenho filhos ainda, mas quero marcar posição aqui no planeta Terra (Via Lactea e afins…) :). Nao quero ganhar o prémio Nobel (bem se ganhar tanto melhor) sei que nao tenho estaleca suficiente para isso (apesar de no final do secundario estar convicta que um dia poderia ganha-lo). Entrei no mundo da ciencia porque mesmo que hoje “as minhas descobertas” nao sejam uteis, mas quem sabe amanhã ou daqui a 15 anos sejam… A ciencia nao se faz num so dia, sao varios anos, decadas e mesmo assim nem se obtem aquilo que desejavamos no inicio da pesquisa, obtem-se por vezes coisas alem da espectativa (aí está o encanto!).
    Comigo quebra-se esse encanto quando tenho que escrever, tratar de burocracias e fazer apresentaçoes em que estao milhentas pessoas a olhar para ti (comigo é assustador!) Ainda mais assustador quando está ao teu lado um premio nobel da quimica e tu nao saberes o que dizer ou fazer, ficava modo estática (ok que tambem ficava assim se visse o Johnny Deep! mas nao é a mesma coisa:))

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    • Obrigada Andreia. Sabes quando te perguntam “o trabalho correu bem?” E tu respondes “sim” sem dizer mais nada sabendo que em ciência cada dia de trabalho é um continuo de dias em que so se sabe se correu bem daí a muito tempo :)! Mas sabemos que ninguém vai perceber, por isso respondemos apenas “sim”!

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  2. Adorei!!!
    Espero um dia vir a conhecer-te pessoalmente, acho que teremos muito tema de conversa.
    E porquê? Porque também gosto de trabalhar sob pressão, sobretudo quando sou eu que causo essa mesma pressão (tal como tu). 🙂
    Se um dia for a França ou algo que nos permita encontrarmo-nos, seria interessante. ahaha

    Adorei o texto!
    Beijinho

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