Das Calanques de Cassis ao alto-mar em veleiro… com muitas peripécias!

Este ano decidi fazer férias na Côte d´Azur. A região PACA (Provence et Alpes Maritimes) é lindissima e existem inúmeras actividades propostas, entre o mar e a montanha.

Durante a última semana tive a visita de uma amiga, a M. Chegou à Côte d´Azur linda, de vestido de seda longo e com todo o glamour que a região exige. Seguiram-se os programas clássicos: visitar Nice, Mónaco, Cannes,… e a M. não se saiu nada mal a andar de bicicleta – apenas uma queda que lhe fizeram umas nódoas negras na perna e nas mãos, mas nada de muito grave. Quando caiu – junto à Croisette de Cannes – foi levantada como uma pluma por um (quase) deus do Olimpo – lá músculos (e força) tinha.

Seguiram-se os programas menos glamour – os meus preferidos :)! No dia que visitámos Nice jantámos com o Chris.  Disse-nos que tinha ido às Calanques de Cassis, ilustrando com fotografias tentadoras. “Eu sei que é bonito, mas disseram-me que a água é super fria” disse-lhe. Ele disse que era mais fria do que aqui, mas mais quente do que na nossa costa, em Portugal. Ok! Está decidido. Ele ainda acrescentou que para aceder às calanques teríamos de andar um bocadinho, mas nada de especial.

Passámos a noite numa pequena aldeia histórica de topo de colina, próximo de Cassis. A aldeia tem apenas uma rua com 4 ou 5 esplanadas de restaurantes. Escolhemos o restaurante “chaise bleue”, que na verdade não tem uma única cadeira azul. O staff compreende 4 empregados: a patroa – uma loira de mini-saia, o caixa – um jovem que apenas vi ao longe, o empregado de mesa – com um hálito a álcool perceptível a 2 metros e, eventualmente, o cozinheiro – que não vi. O ambiente de aldeia em França não é muito diferente do das aldeias de Portugal. Para mim foi quase uma viagem a Proença-a-Velha, aldeia beirã em que o meu pai nasceu. O empregado trouxe-nos o menu e foi-se embora. Destino: o seu copo de vinho sobre o balcão. E lá ficou! Passado (muito) tempo regressou. Escolhemos os pratos. E as bebidas? Pois. Só depois do senhor beber outro copo de vinho e, claro, fumar o seu cigarrinho – juntamente com a patroa e o caixa. E foi isto… durante todo o jantar. Ah… falta uma coisa. Lembram-se de ter dito que estava numa esplanada? Com árvores… que têm pássaros… já estão a imaginar não já? Levei com uma coisa pastosa branco-acastanhada em cima da mão… e do prato! brrrr ca nojo!

O empregado de mesa é o da esquerda e o caixa está na posição de onde nunca saiu.

O empregado de mesa é o da esquerda e o caixa está na posição de onde nunca saiu.

Acordámos cedo. Adoro a luz de início de dia. Destino: calanques. Durante o verão as estradas estão todas cortadas – para reduzir o perigo de incêndio. Solução: deixar o carro na estrada nacional entre Cassis e Marselha e ir a pé. Enquanto procurávamos o melhor acesso para deixar o carro, passa um tubarão a correr. Isso! Um homem, vestido de tubarão – com cabeça com dentes e tudo – a correr, na berma da estrada nacional. A M. confirmou que os franceses são um bocado estranhos. A Beatriz já só diz – são franceses! :). O início do percurso está assinalado com um mapa. Aqui em França tenho tido sempre o mesmo problema com os percursos pedestres: têm uma indicação de tempo e nunca referem a distância. 4 horas de percurso ida e volta. Bom 2h a andar, não me parece muito! Ok! Vamos a isto! A M. coloca o seu chapéu (à tia de Côte d´Azur) e saquinho a condizer – assim a jeito de “nem sei onde é que me meteram!”. Desce. Sobe. Desce. Sobe. Curva à direita. Curva à esquerda. E outra. E ainda outra. Oh não. E muitas outras. E desce. E desce. E nunca mais chegamos. E chegámos. À plage en-vau. À pinha de gente. De água transparente. De falésias calcárias lindíssimas. Que tentação! Depois de tantas horas a andar. Tirar a roupa. Correr para a água. Colocar um pé… e… com muito esforço o outro… e Ups! Congelei! A água é um gelo… qual atlântico qual quê! Parece as cascatas do Gerês na Primavera. Almoçámos. Enquanto a M. pensava que teria de fazer o percurso inverso “Epá nunca andei tanto na minha vida!” eu olhava o topo das falésias. Sempre tive este fascínio, de subir ao ponto mais alto. “Eu quero subir ao topo da falésia.” A M. incrédula “Estás maluca? Não vamos nada! Olha o teu tornozelo!” Mas eu estava decidida. Não ía perder a oportunidade de estar ali e não ver as calanques de topo. “Bora lá!” Eu tinha visto um acesso pouco antes de chegar à praia. No início da subida – mais parecida com escalada a M. “Tens a certeza? Eu tenho vertigens!” Mas com calma tudo se consegue! Subimos, leia-se trepámos a falésia e voilá! Uma paisagem magnífica – sem dúvida a recompensa do esforço! Seguiu-se o regresso. Lento. Suado. Difícil. Um verdadeiro pesadelo para a M. “Nunca estive tão suja na minha vida. Ai os meus pés. E as mãos.” Eu só me ria. Imaginando a M. num Boom Festival ahahhaah “Tás maluca, eu alguma vez ía a uma coisa dessas!”

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Chegámos a casa próximo das 22h. Com sushi à emporter para o jantar. A Beatriz entrou em casa e disse “mamã vou já tomar banho e hoje nem reclamo” :)!  Banhos rápidos porque era preciso descansar. Teríamos de acordar cedo para um passeio de barco. Cedo não! De madrugada!

Ontem foi dia de programa turístico. Dia passado num veleiro para observar os mamíferos do mediterrâneo, leia-se cachalotes e golfinhos. Na região existem muitas empresas que oferecem programas deste género. Existem barcos modernos, equipados com tecnologia que permite saber onde estão os grupos de animais – avistamento garantido – mas que transportam dezenas de pessoas munidas de máquinas fotográficas e iPads e iPhones, transformando a visita numa caça paparazzi aos bichos. E existem barcos mais pequenos, normalmente veleiros, que transportam 12 pessoas, mas não garantem que encontremos os ditos. Como sou pouco dada a multidões, escolhi a segunda opção.

O barco, um modelo do século XVI muito ao estilo dos piratas, pareceu-me pequeno. Quer dizer. Pequeno não era – 23 metros de comprimento. Mas estava muito próximo da água :). Saímos do porto de St Jean Cap Ferrat em direcção ao mar, ou seja, contra as vagas. Ups… Vai a cima! Vai a baixo! Vai a cima! Vai a baixo! Aquela sensação na barriga! De cair no vazio! O mar estava agitado, com vento de SW. Qual golfinhos qual quê! Eu a ver a costa cada vez mais longe, com apenas azul encrispado no horizonte – que pesadelo! Passado 1h ou 2h disto uma pessoa habitua-se – mas só mais ou menos -. A Beatriz deitou-se ao meu lado, com os coletes salva-vidas a fazer de travesseiro. E pensámos na nossa casinha – em terra firme – e em quando é que o dito passeio terminaria. O capitão do barco não se calou um único instante, durante as 8h que passámos no barco. Falou. E falou. E falou. Sobre quê? Sobre tudo e sobre nada! Falou sobre todos os mamíferos do mediterrâneo. Sobre a profundidade a que estávamos – o que acreditem, é fantástico saber que estamos numa zona de 1200 metros de profundidade, quando o barco está no meio de vagas que, mesmo em filmes, me fazem medo! Grrrrr  A Beatriz lá ía dizendo, cada vez que passava um helicóptero “socorro, tirem-me deste pesadelo!” O passeio só passou a ser tolerável quando o barco deu meia volta e começou a dirigir-se para a costa. Mesmo que estivessemos muito longe, a sensação de estar a regressar e de não ter as vagas de frente fez com que descontraísse e usufruísse do momento. Isso até a Beatriz se lembrar que queria ir à casa de banho – ir à parte inferior do barco é indescritível. Lá fomos. Numa casa de banho cuja porta abre e fecha de acordo com a inclinação do barco. Qual filme de terror. Na aproximação à costa senti-me no meio de um trânsito caótico, entre os Ferries da Corsega e Sardenha, os Cruzeiros de mais de 10 andares, os mega-iates, os barcos de recreio,… que confusão! Quando estávamos a chegar ao porto uma senhora diz “O saldo até foi positivo, vimos um atum e três pássaros”! A Beatriz tem uma versão diferente “Mamã só vimos um atum e nem sequer estava na lista do senhor!” ahahahahah haja humor e tudo termina bem!

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Hoje é dia de ficar em casa, a recuperar dos últimos dias… Ainda sinto a cabeça às voltas, como se estivesse no barco…

Até breve

 

 

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